domingo, novembro 11, 2012

Ensaios-S: Chobits, Ficção Cientifica à Moda do Clamp!


É, eu fui um dos caras que bolou essa bagaça. E agora é a minha vez de entrar com um assunto! Mas, mesmo sendo um dos posts pertencentes ao #ClampDayR2, isso não quer dizer que vou pegar leve. O texto a seguir é bem extenso e vai falar de uma porrada de coisa que analisei sobre esse mangá. Pode ser que alguns fiquem perdidos e pelo menos UM indivíduo específico vai ficar possesso da vida comigo, mas o negócio é ler na manha. E lembrem-se que, como sempre, eu estou expondo as MINHAS conclusões, o que não quer dizer, em hipótese alguma, elas são as Tábuas dos Mandamentos. Leiam, ponderem a respeito e tenham as suas próprias opiniões a respeito, OK?

Bem, pra começar, por qual razão escolhi falar de Chobits? Primeiro de tudo, o mangá foi publicado no Brasil pela JBC por completo, e o anime já é um tanto conhecido (ainda que não tenha passado oficialmente aqui). E, em minha humilde opinião, é um dos mais interessantes trabalhos do Clamp, ainda que a parte mais interessante esteja mais nas entrelinhas. E é uma boa história de ficção científica. E que nos faz pensar.

Mas vamos lá a um conceito básico, de saída: o que é ficção científica (vulgo FC), afinal? A definição mais clara e fácil de se entender é: "uma verdade ou teoria da ciência e como ela influi uma sociedade ou indivíduos". Ou seja, como isso muda a vida das pessoas. No caso de Chobits, a parte ciência da história é no campo da robótica, que nos leva a dilemas que lembram os tratados pelo mestre Isaac Asimov, mas que diferem bastante da abordagem dele.

Vamos a um rápido resumo: num futuro não muito distante (e não muito mesmo, de certa forma) a evolução da informática levou a fusão dos computadores pessoais com a robótica, e o surgimento dos persocons (abreviatura de personal computer). Um japa maluco (e que era mesmo, vejam Angelic Layer pra saber quem) teve a brilhante idéia de criar andróides, similares aos seres humanos, que além das funções de um PC normal como usar a internet pra baixar putaria, também podem fazer trabalhos físicos como arrumar a casa ou ajudar no comércio...ou simplesmente ir na padaria pegar o pão pro café da manhã...

Boy meets Girl. With a twist.
Entra em cena nosso herói, Hideki. Um rapaz simples e gente fina do interior que vem para a capital pra tentar o vestibular. Vivendo na capital e tendo que arcar com os custos de morar sozinho e estudar, ele não tem grana sobrando pra comprar um Persocom. Mas é quando ele acha a Chi no lixo. 

Além de ser uma graça, Chi também é um mistério. Quando é ligada, não fala nada além de "Chi" (e o Hideki usou o método Pokémon pra dar um nome pra ela). Parece estar formatada, sem saber fazer praticamente nada. Mas em compensação ela consegue aprender por si só, tanto ao imitar as ações de Hideki quanto com as lições dele.

Se parar pra pensar, essas duas seriam Smartphones?
Numa primeira olhada, Chobits parece aquela clássica comédia romântica: rapaz meio bobo mas legal, uma quase-namorada que veio vai lá se saber daonde, e as situações em volta disso. Mas quem conhece o Clamp, sabe que, na maioria das vezes, nem tudo o que parece é...

Se tem uma coisa que as quatro tias de Kansai sabem fazer, é colocar mensagens subentendidas em suas obras, sem pudores nem medos. No caso, sobre a possibilidade da criação de inteligências artificiais quase no nível humano. Mas ao contrário de outras obras, o nível das AI ainda não é a perfeição capaz de emular completamente uma mente humana. E nisso entram os sentimentos. Freya explica para Hideki no mangá que Chi seria "incapaz de sentimentos reais". Porém, já que ela disse isso no meio do teste para ver se Hideki era "a pessoa só para a Chi", não dá pra se ter certeza se ela falava a verdade ou não.

Mas antes de se chegar a esse ponto da história, aparecem várias situações em que Hideki nota que os seres humanos preferem conviver com máquinas em vez de outras pessoas; tem uma parte que fica claro isso em que ele nota, na rua, que não há humanos andando com outros humanos, mas sim com Persocons. Nota-se que as pessoas começaram a preferir a conveniência de uma máquina do que outra criatura tão errática quanto si mesmos.

Trágico...
Há mais de uma situação em que há o conflito entre as relações entre a sociedade e os relacionamentos humano - Persocom. Quando houve aquela notícia do cara que casou com sua personagem do Love Plus, a primeira coisa que pensei foi na parte do Ueda, que casou com uma Persocom, que no final terminou de forma trágica (se bem que a coisa melhora depois). Ali percebemos o que poderia talvez esperar Hideki e Chi, e cai a ficha de que talvez, essa história romântica pudesse não terminar bem.

Mas terminou muito bem, ainda que não seja a forma que alguns "c* ardido" tenham gostado...

No clímax, Hideki é testado por Freya, a consciência da "irmã gêmea" de Chi, que habita o corpo dela.


"Quem é a pessoa especial do Hideki?"

Ah, qualé, a resposta que ele deu foi óbvia...


Hideki é sincero, e diz claramente que quer ficar com ela, independente dela ser humana, Persocom, ou seja lá o que for. Simples assim.

É aí que ela pergunta: "então, se você ama a Chi, você sente desejo pela Chi?"

É aí que Hideki se toca que era Freya, e não Chi que estava ali. Ela diz estar ali para explicar algo que ele precisava saber, se ele amava Chi. Hideki diz que não se importava com o que quer que fosse, e é aí que ela pergunta se, justamente por amá-la, ele a desejava. Sim, DESSA FORMA que vocês pensaram!

Freya explica que, se eles consumarem esse amor, Chi se perderá. Suas memórias, personalidade, tudo dela  seria formatado e reinicializado, que nem no começo. E tudo que bastava para isso era pressionar o botão de reinicialização dela. Adivinhem AONDE fica esse botão?


Hideki indaga se a série Chobits (ou seja, Chi e Freya) teriam realmente sentimentos, por serem uma série especial de Persocons. Freya diz que isso provavelmente seria uma lenda urbana. Elas não eram tão diferentes dos demais Persocons. Se eles tivessem sentimentos, seriam considerados seres sencientes, formas de vida. Se fossem assim, seriam similares aos humanos, e não seria um "pecado" amá-los.

Ela pergunta a Hideki se ainda assim ele gosta da Chi. E é claro que ele diz que sim.



Ele deixa claro que não se apaixonou pela Chi por ter desejo por ela, mas por amá-la, e nada mais do que isso. E não vai parar de amá-la simplesmente por não poder fazer AQUILO com ela. 


Simples assim.

Não sei a razão pra que ALGUNS se revoltaram por isso, sabendo muito bem como é o Clamp. Afinal, uma das diretrizes delas é que "o amor transcende QUALQUER barreira, seja de gênero, idade, ou mesmo espécies". E outra de que "NADA pode impedir alguém de amar", ainda que possam existir barreiras para que haja um "final feliz". No caso de Hideki e Chi, a conclusão foi a melhor possível pra eles. Considerando o que acontece com outros casais em outras obras do Clamp, foi um final MUITO feliz!

Mas ainda tem um ponto interessante que queria falar. O ponto que trás a diferença maior com os robôs de Asimov fica nas entrelinhas quando, no final do mangá, Hideki pergunta a Chitose por quê os Persocons não são chamados de "robôs".


Ela responde "Meu marido não queria que elas ficassem limitadas pelas Três Leis da Robótica".

As leis em questão, criadas por Isaac Asimov, são estas:


Primeira Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
Segunda Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
Terceira Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e/ou a Segunda Lei.


As Três Leis da Robótica foram uma sacada genial de Asimov para seus contos, e uma sacada tão boa que são algo que PODE ser aproveitado na robótica. O Bom Doutor as criou como uma forma de que seus robôs pudessem discernir entre Bem e Mal e ao mesmo tempo, impedir que eles se rebelassem contra os humanos. Os contos de Asimov geralmente envolvem situações envolvendo essas Leis, e esses conflitos (muitos deles chamados de "dilemas insolúveis", em que há situações em que as Leis conflitam entre si de forma sem escapatória)são o que tornam uma leitura obrigatória em FC, tipo Tolkien pra fantasia.

Por outro lado em Chobits, mesmo tendo o discernimento entre Bem e Mal, como vantagem, as Três Leis seriam um grilhão pesado para os Persocons, o que ia totalmente contra o que Mihara queria para eles. Visto que as Leis são interpretadas LITERALMENTE, da mesma forma que linhas de código (por mais avançadas que sejam), a parte de "causar mal a um ser humano" por si já é uma complicação, pois até mesmo uma mágoa PODE ser considerada "causar mal". Tem um conto do Asimov mesmo em que um robô se frita sozinho por não poder responder uma pergunta que magoaria uma de duas pessoas.

O fato de que os sentimentos podem causar dor era algo que os Persocons deveriam aprender e assimilar como algo natural, para que ficassem mais próximos dos humanos. Com a escravidão que as Três Leis os submeteriam, seria improvável que eles se desenvolvessem com a visão que Mihara tinha. E notem que as coisas ficam em aberto quanto ao futuro dos Persocons e sua evolução (ou não.) 


Tem gente que comenta que "não precisava de ter fanservice" em Chobits. Claro que esse pessoal está mais do que errado. Primeiro, o Clamp se originou como um Circle de doujinshi, e por isso elas (ainda mais por serem o MOTHERFUCKING CLAMP, PORRA) fazem as histórias como der na telha. E segundo, como a série tem a premissa de ser uma comédia romântica que saiu na Young Magazine (para jovens adultos), qual o problema em um pouquinho disso, eh?

Teve o caso de um certo autor de fanfics, que é razoavelmente conhecido por aí (ainda mais por ser motivo de piada), que ficou muito putinho por Chobits ter saído do "canon" pessoal que ele mesmo pôs em seus fanfics. Dizem que depois disso ele virou um pastor que prega que "moe é o SATANÁS" e o K7 a 4. Não me admira tudo que ele tocar redundar em fracasso...ele que se rale na lomba^^

Mas de modo geral, Chobits é uma história leve de FC, que pode ser bem apreciada como uma dessas ou não. Segue a fórmula de escrita do Clamp, e a arte é esmerada, como sempre. Quem sabe no futuro a JBC não faz uma republicação do mangá?

Se bem que a mensagem principal de Chobits tem que ficar na mente: com a evolução da tecnologia, cada vez mais atraente, as pessoas estão evitando inconscientemente o contato umas com as outras. Esse recado presente em Chobits, que neste mês completará 10 anos do fim de sua publicação, está assustadoramente atual. Acho que vale a pena se lembrar disso de vez em quando...


E disso também! ;P


E semana próxima: um post fazendo um balanço geral do #ClampDayR2.
E um spoiler: IT'S FULL OF WIN!!!